Jornadas Templárias

III Jornadas Templárias para o Conhecimento Ecuménico em Lagos

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Decorreram em Lagos no dia 29 de Fevereiro as III Jornadas Templárias, que se vão já impondo como um momento alto no calendário de inciativas da OSMTHU em Portugal.

Organizadas pela Comenda de Laccobriga do Grão Priorado de Portugal, com o apoio da Câmara Municipal de Lagos e da Associação Grupo Coral da mesma cidade, as Jornadas visam ampliar o conhecimento e a cultura dos membros da Ordem e do público em geral, versando temas centrais à compreensão da Ordem do Templo, da Ordem de Cristo e da sua continuada relevância nos dias de hoje.

Desta feita, o desafio lançado aos oradores foi a reflexão sobre “Quinto Império… e a Saudade do Futuro”. Respondeu um conjunto de interessantes palestrantes, muitos já repetentes, recebidos por um número crescente de espectadores, sempre atentos e participativos.

O dia abriu com uma exposição de livros relativos ao tema, muitos da autoria de alguns dos oradores, o que proporcionou agradáveis momentos de diálogo entre autores e leitores, entre autógrafos e perguntas interessadas. De seguida o Grupo Coral de Lagos abrilhantou o evento com algumas peças de canto coral de uma encantadora beleza.

De seguida a Vereadora da Cultura da Câmara de Lagos, Drª Sara Coelho, procedeu à abertura das Jornadas com palavras que bem ilustram o apoio das entidades oficiais a todas as iniciativa culturais de relevo no Concelho, referindo o interesse do Município numa continuidade da já sólida colaboração com a Ordem.

O primeiro orador foi o Preceptor Geral do Grão Priorado de Portugal, responsável pelo programa de estudos e coordenação das acções de formação interna nos diversos graus. Tomando o tema de frente, fez uma recolha metódica das diversas fontes do mito do Quinto Império, desde as sucessões das Idades nos textos sagrados orientais, passando pelo Antigo Testamento, não esquecendo Joaquim de Fiora, Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva. O seu texto pode ser consultado aqui.

Impossibilitado de estar presente, o empresário e antigo modelo Tó Romano, disponibilizou alguma literatura e um vídeo relativo ao seu projecto EVADREAM. Nascido em Lisboa e formado em Arquitectura em Belas Artes no início dos anos 80, Tó Romano ganhou reconhecimento pelo trajecto que fez na moda e que o levou a ser um dos primeiros modelos portugueses a trabalhar internacionalmente. Em 1989 fundou com a sua mulher Mi Romano a agência de modelos Central Models, que ainda hoje ambos dirigem e cujos modelos têm cada vez mais sucesso a nível mundial.

O vídeo, de 2015, mostra uma preocupação e uma ideia que antecipa esse Portugal do Quinto Império. Desde essa apresentação, o número de cidades que aderiram à proclamação “Vamos Florir Portugal” tem aumentado e é já um caso sério digno de case study.

Após um curto intervalo foi a vez da intervenção de Virgílio Alves, representante da recém-criada Associação Mar e Saudade, cujo trabalho notável se consubstancia, entre outras vertentes, no já inaugurado Museu Hermético Português, cito em terras de Almourol, em Vila Nova da Barquinha e único no seu género. Os propósitos da Mar e Saudade foram expostos e fez-se uma visita guiada pelo website, explorando-se alguns dos recursos já disponíveis. Na impossibilidade absoluta de estar presente, o seu fundador Manuel J. Gandra, que tem apoiado e participado nas Jornadas Templárias de Lagos desde a primeira edição, enviou o vídeo “Do Ser, do Estar e da Saudade”, que disponibilizamos de seguida.

A sessão da manhã encerrou com a intervenção do Prof. Fernando Casqueira que, na sua qualidade de Grande Preceptor da Grande Loja Soberana de Portugal, abordou, entre outros, o tema da perda do Império e da influência internacional como percursor da vertente de desencanto e desesperança da Saudade, traçando um périplo de uma rara erudição por todo o século XIX e XX, até desembocar na rememoração dos mitos por António Quadros, Dalila Pereira da Costa, Lima de Freitas e Agostinho da Silva. Terminou ainda abordando ao de leve os mitemas mais marcantes das questões ligadas ao Quinto Império, concordando com os oradores da manhã e antecipando uma tarde animada.

Após pausa para o almoço, a sessão da tarde foi aberta pelo conhecido autor e Professor Eduardo Amarante, fundador das Edições Apeiron, em cuja extensa obra a temática do Quinto Império e dos Templários tem tido lugar de destaque. Na sua comunicação discorreu acerca das origens da religião do Quinto Império, das dinastias de Borgonha e Avis e suas ligações, do Preste João bem como toda a problemática da Saudade. A sua comunicação pode ser lida aqui.

Seguiu-se a intervenção de Luis Natal Marques, Grande Conselheiro da Ordem Rosacruz AMORC em Portugal, que escolheu um tema pouco tratado, mas de grande interesse: “O Riso e as Religiões”. De facto, sendo uma das manifestações do Paráclito o brotar de uma incontrolável alegria, que se expande em riso e gozo, frequentemente designado por deleite, o papel do riso e da alegria é muitas vezes subalternizado nas religiões do Ocidente. Com muito humor e numa cativante apresentação, o orador soube prender o público e proporcionou a mais original e inesperada intervenção da tarde, que mereceu justos rasgados elogios pelos presentes.

Seguiu-se a apresentação do Rito Português por João Pestana Dias, Grão Mestre da Grande Loja Soberana de Portugal. Inserido no contexto do movimento da Nova Maçonaria Portuguesa assumido pela Soberana no último par de anos, o Rito Português teve a sua origem na Grande Loja Legal de Portugal/GLRP em 2015 tendo florescido desde então em outras Obediências, mantendo sempre a continuidade iniciática e proveniência maçónica, dando destaque à portugalidade e à exploração simbólica das fontes literárias e artísticas que se fundam no ideal do Quinto Império.

Explicando que o Rito Português é o Rito oficial da Grande Loja Soberana, João Pestana Dias foi expondo alguma da história e da especificidade litúrgica, desenvolvida tendo como matriz o Rito Escocês Antigo e Aceite. Foi de marcado interesse a memória descritiva dos símbolos adoptados (a cruz decorrente do estudo do quadrado e do octógono, com os seus cabos marítimos e inspiração nos traçados da Ordem de Cristo, os diversos paramentos de cada grau, os paramentos de Venerável Mestre e Grande Oficial, etc.).

Encerrou os trabalhos do dia Mons. Luis Fonseca, Tau Christophorus de Lusignan, Capelão do Conselho Magistral da OSMTHU e Bispo da Old Templar Church, que abordou o tema do “Quinto Império… e Saudade do Futuro” numa perspectiva muito directa e pedagógica, sempre com a preocupação de se fazer escutar como uma voz da Ordem e de falar em nome desta, devidamente credenciado para tal.

Por esse facto, evitou cuidadosamente discorrer sobre os assuntos abordados até esse ponto, procurando em alternativa entrar no mais profundo do tema pela intermédio da meditação activa e da contemplação. Assim, seleccionou algumas peças musicais que pudessem ilustrar por via dos sentidos o que as palavras não alcançam, elevando de forma palpável o entendimento da plateia, tocando uma corda especial no coração de todos. Segui-se quase uma hora de intervenções espontâneas dos presentes que, com muita elevação e gosto, prolongaram ainda mais a profunda impressão deixada pelo orador.

Apesar do memento ser irrepetível, deixamos aqui o texto de base que foi lido, o qual contém os links para os vídeos apresentados.

As III Jornadas deviam ser encerradas com uma apresentação pelo Grão Prior Geral do Grão Priorado de Portugal, Luis de Matos. Contudo, este, dirigindo-se à assembleia explicou que tinha ocorrido o mesmo que já se passara em outras ocasiões em relação ao Luis Fonseca. Sem se terem falado na preparação dos seus trabalhos, estes acabaram por ser tão irmãos nas referências e conteúdos que – disse o Grão Prior – na sua apresentação havia um vídeo com um fado cujo autor era o mesmo da apresentação de Luis Fonseca – o poeta e guitarra clássica Jorge Fernando – exactamente com o mesmo lineup musical: Filipe Larsen no baixo acústico e Custódio Castelo na Guitarra Portuguesa… A única diferença era a voz, em que despontava Jorge Fernando e numa outra peça, Mariza. Dada a coincidência inesperada e o efeito obtido pela apresentação de Luis Fonseca, o Grão Prior rematou dizendo: “Uso da minha prerrogativa de me remeter ao silêncio; convido-vos todos a regressar a casa também em silêncio e ainda com os ecos do que aqui ouviram no coração.”

Em resumo, está de parabéns a Comenda de Laccobriga do Grão Priorado de Portugal da OSMTHU bem com o seu Comendador Victor Varela Martins e todos os membros e família que o ajudaram a levar a cabo este duro trabalho, apreciado por todos. Torna-se já uma tradição nesta época do ano rumar a sul e desfrutar da amizade fraternal entre Cavaleiros e Damas, mas também entre um número cada vez maior de convidados, amigos e público. Mais uma vez se trabalhou de forma ecuménica, intergrupal, mostrando que a colaboração com outras Ordens, movimentos culturais e tradicionais, pesquisadores e autores, é possível e profundamente transformador.

Em 2021 as IV Jornadas serão uma realidade.

Atentos aos tempos.