Dia de São Miguel

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Raffaello Sanzio - Tutt'Art@ - (46)

Hoje foi dia de São Miguel. O Arcanjo que encabeça as milícias celestes. O que eleva a espada ao céu e traz a justiça aos injustiçados. O que não dá tréguas às criaturas dos abismos nem paz aos senhores da guerra. Lâmina afiada, corta a direito. Desfaz a escamosa goela num golpe, esventra a peçonha, rompe a perfídia em farrapos finos. Não é mandado por Deus à cabeceira do doente para lhe dar força e confortar. Não canta no coro das esferas celestiais. Não traz novas de vida com o lírio na mão. Não sopra ao ouvido cândidas palavras. Não guarda do infortúnio. Não dá a mão ao débil. Não. Deus não o fez Senhor das Milícias para que fosse admirado, mas para que fosse temido. Não para que deslumbrasse em halo radiante, mas para espavorir os adversários da luz. Não é um anjinho de peanha. Não é uma cara fofa da renascença. Não agarra as saias da Virgem. É o medo na sua mais pura forma. O medo imparável do férreo castigo que tem por lei a lâmina, para quem tem por anima não ter lei. É o dia do fim dos que roubam na noite. É o tormento dos que atormentam. O suplício dos perversos. O carrasco dos assassinos. Algoz dos tiranos. Verdugo dos opressores. É a lei em forma de espada flamígera e fatal. Espada em brasa, rubor de lume e dor, golpe desferido do alto, certeiro, imparável e preciso como um diamante cortante.

Dia de São Miguel. Da milícia de justiça. Vértice celeste da Cavalaria terrestre. Protege-nos, nosso chefe arquiangélico. Tu, que ouviste o nosso humilde murmúrio nos corredores do Templo: ao Teu nome dá glória. Ao teu nome dá glória. Ao teu nome dá glória; e respondeste no teu silêncio sereno: Quis ut Deus?

Luis de Matos

Prior, Osmthu Portugal