Pisar a Estrela Que Dá Acesso ao Céu

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A porta de pedra giratória passa facilmente despercebida a qualquer olhar menos atento, disfarçada que está no meio de um aglomerado de pedras perdido entre a vegetação. Mas é ali, precisamente, mais que em qualquer outro local da Regaleira, que ganham vida os ideais dos mestres maçónicos e as demandas em nome da fé levadas a cabo pelos cavaleiros templários.

Ali mesmo, na entrada do Poço Iniciático. Porque aquele é o símbolo perfeito da descida ao interior da Terra (ao mais fundo de nós?) que desencadeia o processo irreversível do Homem em busca de si mesmo. E depois, uma vez vencidos todos os obstáculos, continua a ser ele o símbolo perfeito da subida em direcção ao exterior – a iluminação do peregrino que conseguiu ser mais forte que a viagem que se propôs fazer.

“Este lugar tem realmente um pouco de tudo”, confirma António Silvestre, abrindo a porta à descoberta e às explicações “As pedras da entrada sugerem logo a morte simbólica, iniciática, que precede a descida” – feita de 15 em 15 degraus até percorrer os nove patamares que trazem à memória os nove círculos do Inferno, os nove céus do Paraíso e as nove secções do Purgatório da Divina Comédia de Dante. E o percurso descendente lá continua, cada vez mais fundo. Cada vez mais intenso, à medida que a estrela de oito pontas e a cruz templária que nela se esconde vão crescendo a olhos vistos, até os pés tocarem o chão e o centro.

“A partir daqui várias possibilidades estão em aberto”, avisa o guia, apontando o labirinto que se segue e se faz de múltiplas escolhas, tal como a vida. Um dos caminhos vai dar a um beco sem saída [aquilo que acontece a quem recusa a viagem], outro vai ter ao Poço Inacabado, que recebe a luz do dia mas não dá acesso ao exterior [representando os que optam pelo menor esforço e acabam por se perder a meio do percurso].

“Há ainda um outro caminho que tem saída e luz, mas é mais comprido que os outros e não tem água. E um último que se faz pela direita (novo elemento simbólico) e vai desembocar no Lago da Cascata, de uma beleza espectacular que sobe para o exterior.” Quase como se dissesse que o processo está completo, fnalmente. Que custou, mas valeu a pena. Que tudo na vida terá valido a pena no dia em que percebermos que fomos capazes de superar os nossos limites.

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Precisamos de descer ao inferno antes de sermos livres pensadores

A partir do momento em que o ingresso é comprado e transposta a entrada principal, há apenas uma coisa a fazer subir. E subir mais um pouco. E andar para a frente, sempre, que a área é vasta e o tempo escasseia quando se pretende conhecer a fundo os cenários que, ao longo do percurso, se sucedem uns aos outros para pôr a descoberto os segredos – muitos segredos, misteriosos, únicos – guardados a sete chaves na Quinta da Regaleira.

“O tempo que o palácio levou a ser construído [só ficaria pronto em 1911, 19 anos depois de o ‘Monteiro dos Milhões’ ter comprado a propriedade] prova que nada, aqui, é obra do acaso”, nota António Silvestre, apontando para o edifício que se eleva no terreno com a graça de quem sabe ter sido, sempre, o manifesto pessoal de um homem que quis fazer dele síntese da memória espiritual da Humanidade.

“Carvalho Monteiro era, antes de mais, um camoniano que reconhecia a influência dos clássicos e a necessidade de descer aos infernos, vibrar com as energias da Terra e crescer com todo este processo para, no fim, encontrar o equilíbrio”, resume o guia, explicando o sentido figurado da linguagem “O inferno é o medo que todos temos de quebrar as amarras que nos prendem às ideias inculcadas na infância.” A descida e os obstáculos representam a caminhada que fará de nós livres pensadores. A luz “é o encontro connosco”, uma vez alcançado o autoconhecimento.

Nada foi, de facto, deixado ao acaso. E é preciso passar pelo Patamar dos Deuses e a loggia, pela Gruta do Labirinto e o lago, pela Fonte dos Ibis, a capela, o próprio palácio, o Terraço das Quimeras, a Fonte da Abundância, a Torre da Regaleira, o Lago da Cascata, as Grutas do Oriente, do Aquário, da Virgem e da Leda, o Poço Imperfeito e o Poço Iniciático, o Portal dos Guardiães e o Terraço dos Mundos Celestes para sentir que em tudo aquilo sobra espaço para as convicções de cada um.

A Regaleira não tem pretensões de ser bíblia arquitectónica, mas toda ela é um livro – escrito na pedra que lhe dá corpo e na natureza em que se inscreve. Uma ponte entre tempos e saberes que nos faz querer percorrer os muitos caminhos da propriedade com a certeza de que, no fim, é de um só caminho que se trata.

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Espreitar a metáfora com os olhos da alma

Quando, em 1892, António Augusto Carvalho Monteiro comprou os domínios dos barões da Regaleira por 25 contos de réis, era certo e sabido que aquele espaço estava votado ao sucesso, quaisquer que fossem os planos do novo dono. A cultura e sensibilidade raras do “Monteiro dos Milhões” (como era conhecido graças à enorme fortuna acumulada no Brasil) eram, à partida, sinónimo de mais-valia. O facto de ter desejado para a sua quinta o toque mágico do arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini, famoso pelos rasgos de criatividade e génio, apenas reforçava a ideia.

Ninguém adivinhava, porém, que rosto e espírito iriam animar a Quinta da Regaleira – aninhada a cerca de 700 metros do centro histórico de Sintra – para fazer dela o verdadeiro jogo de opostos que atravessou o tempo e perdura, ainda hoje, nos 4,5 hectares de propriedade e na vegetação luxuriante, na imponência do palácio e da capela, nos estilos neomanuelino e renascentista que se misturam com os jardins de ideal romântico (aqui, as espécies exóticas coexistem com as autóctones, numa recriação do paraíso que devolveria o homem à sua pureza original), na simbologia esotérica e mitológica que se estende às estátuas de deuses e às grutas, aos lagos e aos poços iniciáticos.

“Já trabalho na Regaleira há seis anos e, ao fim de todo este tempo, continuo a descobrir coisas novas. É impressionante”, afirma António Silvestre, o guia que acompanhou o DN na visita guiada pelo mundo místico de uma quinta que se assume, em cada pormenor, em cada recanto, em cada conceito, como filha do caos e da ordem inerentes a todo o processo de criação.

“E o princípio da ordem depois do caos, é a essência da Maçonaria, a que Carvalho Monteiro terá certamente pertencido”, observa António Silvestre, aludindo à reprodução da dinâmica da Natureza pelas ordens maçónicas – em constante renovação interna com vista ao equilíbrio – que se reflecte em toda a extensão da Quinta da Regaleira.

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O que em todo o caso não significa que o “Monteiro dos Milhões” tenha concebido este espaço para a prática de quaisquer rituais. “Não era”, sublinha, “isso que sucedia. As relações simbólicas entre o homem e o universo estão gravadas por todo o lado; a ideia de uma corporação regida pelas suas próprias regras e o conceito de iniciação e de caminhada progressiva rumo ao conhecimento também”, concede António Silvestre. Mas a Quinta da Regaleira tem que ser lida a um outro nível, menos directo e mais abstracto. Puramente simbólico como, aliás, tudo o que existe naquela propriedade e remete directamente para os ensinamentos de inspiração cristã e para correntes esotéricas como a alquimia, o templarismo e a Ordem Rosa Cruz.

“Carvalho Monteiro era essencialmente um conservador patriota e monárquico, que viu na Regaleira um refúgio singular pelo modo como ela lhe permitiu ressuscitar o passado (e a demanda iniciática dos clássicos) e criticar severamente a conjuntura político-religiosa em que o País estava mergulhado na altura”, sustenta o guia. Isso, e representar o caminho da gnose como o único capaz de libertar aquele que ousa empreender, até ao fim, a viagem ao encontro de si mesmo.

Que o génio do “Monteiro dos Milhões” e de Manini só podia ser sinónimo de mais-valia para a propriedade, a vila e a História ninguém duvidava. O que ninguém sabia, então, era que a Regaleira teria alma de metáfora, mágica, surpreendente por nada ser o que parece a um primeiro olhar. Ali só se vê bem com o coração.

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QUINTA DA REGALEIRA (Sintra)

Morada. R. Barbosa du Bocage Sintra

Tel. 219 106 6 50

Horário. Das 10.00 às 20.00

in Diário de Notícias

Photos by Luis de Matos (c) 2006

2 thoughts on “Pisar a Estrela Que Dá Acesso ao Céu

    Most Popular Posts - August « Templar Globe said:
    September 3, 2007 at 1:45 am

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    November 5, 2007 at 3:31 am

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