A Paixão de Cristo em Malta

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No arquipélago onde o catolicismo revela, ainda, uma influência fortíssima na vida quotidiana, não temos, apesar de tudo, os «crucificados» das Filipinas. Mas neste ano um maltês quis fazer-se crucificar. Não o deixaram.

La Valletta, terça-feira de manhã, semana santa. Ainda a ressaca da representação pascal de Tarxien, com milhares a encherem as ruas nessa noite longa, actores sérios e um homem de 33 anos, com as costas flageladas. Atravessamos uma das artérias principais da capital maltesa, cheia de turistas e de locais, que cruzam a rua, apressados. Numa entrada apresenta-se um crucifixo enorme, decorado com os panejamentos e as cores da época pascal. Mais uma igreja? Não. Um café, com sala de bilhar, quiosque, homens à conversa. A sala é enorme e o seu estilo requintado sugere o princípio do século XX. Há uma exposição de arte sacra, naquela que é a sede da sociedade filarmónica.

Estranho? Não em Malta, a terra dos cavaleiros com a ordem do mesmo nome (também chamados Hospitalários), uma igreja em cada esquina e uma imensa maioria católica. Ali o período da Semana Santa é celebrado com um fulgor invulgar. Como se sabe, a história do arquipélago que entrou na União Europeia em 2004 confunde-se com a desta ordem religiosa militar, nascida no fervor das Cruzadas e o catolicismo, presente no Parlamento, é religião oficial. Mas o local onde o crucifixo pontifica, entre o café e a sala de bilhar, já não surpreende quem vê, a toda a hora, em jornais, «outdoors» nas ruas e à beira da estrada, anúncios de reconstituições de cenas da Paixão de Cristo em diversas localidades.

Destes acontecimentos, um tem impacto local: em Tarxien, localidade situada a leste de Malta e conhecida pela riqueza do seu património pré-histórico, teve lugar, na véspera do Domingo de Ramos, uma representação com 400 participantes, música e um desfile teatral. O naipe das participações inclui nomes conhecidos no país, como as cantoras Mary Spiteri e Debbie Scerri, que participaram já no Festival da Eurovisão e que, diriam ao Expresso, estavam «muito emocionadas» por tomarem parte.

A iniciativa, a cargo de uma associação cultural local (Ghaqda Kultura u Armar Marija Annunzjata é o nome, na língua maltesa), vai já no seu 13.º. ano e tem direito a cobertura televisiva em directo. O circunspecto ‘The Times’, de Malta, anunciou o acontecimento com destaque, mas não referiu a questão mais controversa: Joseph Abela, o homem de olhos azuis e intensos que iria interpretar o papel de Jesus, quis mesmo fazer-se crucificar, tal como o Nazareno, que há dois milénios, em Jerusalém, morreu com a sua idade: 33 anos.

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Não o deixaram. Mesmo numa ilha onde religião, poder e festividade popular se misturam num caldo de cultura com sabor a hóstia, o facto é insólito e todos os malteses que o Expresso ouviu discordaram das intenções de Abela, funcionário dos Correios, ao que apurámos. O comentário mais benevolente que ouvimos foi: «Bem, ele pediu para ser crucificado, era porque queria». Malta não é as Filipinas, mas J. Abela ainda deixou-se flagelar por um «soldado» – alguém que, assim, colaborou com a sua vontade de sacrifício. Em visita a Malta e a Chipre, acompanhando uma viagem do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (GAMNA), fomos ver.

Em Tarxien cai a tarde. Não é preciso perguntar onde as cenas decorrem: toda a gente converge para o mesmo sítio. Em breve serão milhares. Pessoas de todo o país (incluindo a vizinha ilha de Gozo) vieram para ver. Mocinhas de minissaia curtíssima, cabelos muito compridos, botas altas pregueadas, caras cheias de maquilhagem, blusas até ao umbigo, a rirem-se entre si como se viessem a uma festa – e vieram. Rapazes com corte de cabelo de reminiscências «punk», famílias com carrinhos de bebé, cabelos grisalhos, padres.

A resposta à pergunta sobre as motivações da vinda é invariável: a fé. Um altifalante recita o início do Evangelho de São João enquanto o frade franciscano Edmond Elm, de La Valetta, queixa-se do «espírito consumista» que afecta alguns católicos mais novos, hoje. Tem razões para queixa: um recenseamento encomendado pela própria Igreja de Malta, de 2005, revela um claro decréscimo da frequência da missa entre os habitantes do arquipélago. Segundo estes dados, só 52,6% da população assiste com regularidade aos serviços religiosos.

Nada disto parece demover a organização das cenas litúrgicas: quando se abre o pórtico improvisado os «quadros» sucedem-se, desde o imperador romano Constantino, que legalizou a fé cristã, e da sua mãe, Santa Helena (a quem se atribui a descoberta da cruz da Paixão), até Adão e Eva. Seguem as personagens do Antigo Testamento: os patriarcas, os faraós, dançarinas com roupas vistosas, o povo do Êxodo, o bezerro de ouro, o rei David. E vem o Novo Testamento, à mistura com cavaleiros templários. As personagens, mesmo as crianças, entram sérias, compenetradas. Nem um relógio de pulso à mostra, nem um soldado romano desleixado. O desfile dura horas enquanto a multidão se apinha.

A chegada do Cristo, já com coroa de espinhos, a sangrar, é o clímax: câmaras de televisão, luzes, telemóveis apontados para a foto, exclamações. O actor vacila para o palco onde está erguida a cruz, mas agora só um ecrã gigante permite acompanhar as cenas. O público reage à dor física do homem com expressões horrorizadas. Os risos do início da festa deram lugar ao silêncio. E o espectáculo segue pela noite.

in Expresso, por Nair Alexandra (texto e fotos)

One thought on “A Paixão de Cristo em Malta

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    June 19, 2007 at 12:18 am

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