Tomar – cidade de mistérios

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Recentemente fizemos uma primeira incursão pelas terras deste rio Nabão que, preguiçosamente, vai atravessando Tomar como se não estivesse apressado em dirigir-se a caminho do Sul, onde mais tarde ou mais cedo as suas águas mergulham nas do Zêzere, a caminho do Tejo, mais abaixo em Constância. E quedámo-nos pelo castelo e pelo Convento de Cristo, eterna sentinela vigilante da Estremadura, rapidamente nos apercebendo que visitar no mesmo dia a cidade seria apressada visita clínica, deitando porta fora muito do que há para descobrir.

Descubramos, pois, a cidade partindo da estátua do Infante D. Henrique, mestre que foi da Ordem de Cristo. Por detrás da figura tutelar da cidade estende-se a extensa Mata dos Sete Montes, ocupando grande parte da antiga cerca do Convento, que bem merece ser calcorreada, mesmo que não esteja nas intenções do visitante chegar às muralhas castelejas.

Observemos o edifício do Turismo, na esquina da rua em frente do Infante e vejamos, se o dia estiver claro, as horas no seu relógio de sol. Junto da Misericórdia cortemos à esquerda e embrenhemo-nos pelo dédalo das pequenas ruas estreitas. Na rua da Judiaria (antiga rua Nova), a Sinagoga do século XV, atravessados que estão cinco séculos de intolerância e perseguições em que foi profanada servindo de cadeia e de palheiro entre outros fins, abre-se ao público com toda a sua dignidade. Aqui poderá o visitante não avisado espantar-se com o processo de amplificação acústica utilizado, baseado na colocação de cântaros dentro das paredes com os bocais para a sala do templo. Hoje funciona aí um pequeno Museu Hebraico e recebe milhares de visitantes anuais, sendo a mais antiga Sinagoga de Portugal.

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A cidade antiga
Voltamos ao nosso caminho e rapidamente chegamos à Praça da República. Junto da estátua do fundador, o mestre templário Gualdim Pais, deixemos o olhar cobrir toda a praça, sempre com a presença protectora das muralhas encimando o morro traseiro dos Paços Municipais, construídos onde estiveram os de D. Manuel. Do lado Sul, assenta o palacete de D. Maria Silveira, do século XVIII, onde avultam elegantes janelas e mansardas. Esta é a praça por excelência onde, no pino do Verão, a grandiosa Festa dos Tabuleiros, em honra do Espírito Santo, traz aos participantes a lembrança longínqua de tempos já perdidos em que estas terras pertenciam aos monges guerreiros.

S. João Baptista, velha igreja manuelina do século XV, espera uma visita depois de apreciarmos a sua torre sineira encimada pela esfera armilar. A delicadeza da decoração manuelina irrompe pelo belo portal dentro e suspende-se na mais bela peça da igreja, o púlpito rendilhado lembrando um pouco o plateresco espanhol. Na capela-mor, com azulejos seiscentistas, é digna de se ver uma escultura representando o patrono da igreja.

Hora é de sair e observar na rua que liga a praça ao rio (antiga rua Direita), a janela renascentista da Casa Manuel Guimarães, voltando de seguida à praça para calcorrear em passo lento e olhar atento a rua Serpa Pinto, que já foi da Corredoura. Rua de compras, o trânsito vedado, é das mais belas ruas de Tomar. Uma bica no Café Paraíso é inevitável, onde parece que o tempo pára, não devendo o visitante deixar de apreciar a bela máquina antiga de café, num canto do balcão, fulgurante no brilho dos seus cromados. A rua é comprida e as lojas, modernas e tradicionais de todos os ramos, estendem-se dos dois lados da rua.

Chegados ao fim entremos na Ponte Velha sem deixar de observar a nora mourisca que recorda aos passantes que esta terra foi cruzamento importante de vários povos e civilizações. Antes de seguirmos para a margem Este do Nabão, não passam despercebidos os velhos Lagares d’el Rei, antigo complexo industrial onde funcionaram as empresas Mendes Godinho.

Nesta margem a pequena capela de Santa Iria, que Tomar assume como sua conterrânea, assinala o local onde a bela jovem teria sido martirizada. Seguindo pela parte esquerda do rio, um pouco mais distante, surge uma igreja fundamental na história de Tomar, da invocação de Santa Maria do Olival, cuja imagem assume lugar destacado no altar. Terá sido fundada por Gualdim Pais, no século XIII, tem características góticas primárias onde ainda se distinguem algumas reminiscências românicas. Esta igreja, classificada como monumento nacional, serviu de panteão dos templários.

Voltemos ao centro da cidade e, agora que o dia se aproxima do fim, observemos as águas que passam lembrando que os povos que ali viveram e sonharam, vieram de muitas e variadas paragens. Os romanos de Sellium, os visigodos, os mouros, os templários, os cristãos, os judeus e tantos mais. Cidade misteriosa, pensamos, enquanto esticamos os dedos gulosos, para um “Beija-me Depressa”, bolinho fascinante que tão bem acompanha uma retemperadora chávena de chá.

Por Orlando Cardoso
Jornal de Leiria
orlccardoso@clix.pt

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